segunda-feira, 29 de julho de 2013

~one more time...

"Se eu olhar pra trás, não vou conseguir", pensou, cheia de medo.
Correu até não ter mais forças. Correu até ser obrigada a parar e se apoiar sobre os joelhos para respirar.
E então ela olhou em volta. Havia corrido por todo o campo, e estava no alto da colina.
Adiante, um penhasco. O vazio da queda. A escuridão e o desconhecido.
O vento a empurrava para longe dele, mas algo na escuridão parecia chama-la de volta.

Por um momento, se sentiu sufocada e tentada a pular. Não havia mais nada a perder. Tudo já havia escorrido por entre seus dedos. Gloria, sonhos, e...
"Não se perde o que não se tem. Nunca foi meu. Nada nunca foi."

Ouviu passos atrás de si, e uma voz profunda dizendo "Volte. Já tentou sua teoria estupida, já testou sua ideia. Mesmo seus poderes não são capazes de esconder o que você é. Nem sua voz, nem seu olhar, nunca poderá. Volte pra mim, permita que eu a proteja e esconda de tudo. Nunca mais será ferida. Nunca mais irá sofrer."

Olhou os olhos negros do guardião e sua aura que parecia lhe engolir os sentidos. E por um momento pensou que iria se dobrar e voltar. Fechou os olhos para encontrar forças para voltar, e admitir sua fraqueza, e o quanto lamentava tudo, aceitando a mão que ele lhe estendia.

E ao fechar seus olhos, viu um outro olhar em sua mente. E pensou em como havia lutado para chegar ali.

"Não" ela respondeu. "Eu fico. Volte você, sua amargura, volte pra casa e fique longe de mim."
"Anna, não seja estupida. Somos eu, você e o penhasco. O que vai fazer, pular? Perdeu suas asas, perdeu o direito de voar, perdeu seus poderes. Você é apenas isso, fraca, destituída de brilho e beleza. Quem nos sete infernos olharia você? O que a fez pensar o contrario?"

Libertando-se das mãos dele, começou a andar de costas, em direção ao penhasco.
"Anna, não!" ele gritou, apenas para vê-la pular. Joss correu até a beira, apenas para se certificar de que havia acabado. "Que seja, que morra, que desapareça!" gritou para a escuridão abaixo de si.

Virou as costas e começou a andar em direção do vale, refazendo o caminho para casa. Por um momento, sentiu o aroma que exalava das asas de Anna, e pensou: "Nunca vi um deles morrer. Talvez seja o aroma da morte, e ela o carregou a vida toda. Talvez por isso não queria voltar. Para não senti-lo novamente". E sentiu pena de tê-la caçado por tanto tempo e por obriga-la a pular. Levou a mão ao peito, em sinal de respeito pela morte da antiga amante.

Então sentiu o aroma se tornando mais forte e mais próximo. Olhou para trás a tempo de vê-la emergir, asas infladas, cheia das marcas da queda, mas emanando força como nunca tinha visto antes. E bela, como jamais havia sido.

E com um sorriso nos lábios ela desapareceu.

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